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Crítica|Call Me by Your Name (2018)

Me chame pelo seu nome traz um típico romance de verão, belo e triste, conduzido com delicadeza e atuações reveladoras

Existe um espaço especial para filmes de romance de verão, usualmente belos e igualmente tristes. Call Me By Your Name, de Luca Guadagnino e baseado no livro homônimo de André Aciman, conta a história de Elio Perlman, um jovem judeu ítalo-americano incrivelmente inteligente, de dezessete anos de idade, e Oliver, um estudante americano convidado pelos pais de Elio para um estágio de verão na casa da família, na Itália. Ambientado nos anos 80 o filme fala, principalmente, a respeito do romance e da sedução, além do desejo ardente desenvolvido por ambos em uma Itália bucólica, repleta de paisagens simples e arrebatadoras.

O filme, originalmente lançado em 2017, chegou aos cinemas brasileiros no dia 18 de Janeiro de 2018. Um longa que atinge picos extremamente emocionais, enquanto acontece lentamente, como um verão arrastado e preguiçoso. Sua principal tarefa é fazer refletir, especialmente em seus minutos finais, durante o momento em que Elio se despede de seu primeiro amor e aprende, duramente, a dor causada pela separação, os percalços da vida de um jovem homossexual e as implicâncias de uma história de amor proibido. 

“Me chame pelo seu nome que eu te chamarei pelo meu”

Durante o decorrer do filme, lentamente o telespectador é levado a experimentar o jogo de sedução que ambos os personagens desenvolvem. Tudo é muito tímido e repleto de sensualidade. Existem toques, suspiros, sexualidade, mas estes sentimentos, proibidos, quase não enxergam a luz do dia, da inebriante Itália romântica apresentada através de uma fotografia delicada, sutil e belíssima.

A trilha sonora também trabalha para criar o tipo de tensão sexual que acompanha ambos os personagens durante o filme. Em determinados momentos lenta e provocativa, em outros alegre e despretensiosa, como um romance de verão, com sua data marcada para o fim eminente e que encontra voz apenas em sua conclusão. Para o longa duas músicas originais foram compostas, por Sufjan Stevens. Visions of Gideon, que embala a tristeza de Elio, fala sobre como o romance começa e termina repentinamente, mesmo que o amor permaneça. Mistery of Love, sobre o primor do relacionamento entre Elio e Oliver, mistura romances épicos, como de Alexandre, O Grande e Heféstion, mas também é carregada de pesar. 

Sensualidade é a palavra chave de Call Me by Your Name, especialmente no começo, enquanto Oliver e Elio trocam toques, olhares e sensações não verbalizadas. A frase do adolescente no fim, durante uma sequência de confissões, é a que melhor ilustra o que o ritmo lento deixa subtendido durante essas duas horas: “Por que demoramos tanto tempo?”.

Toda a aproximação entre os dois é carregada de preocupações e falta de pretensão. No começo Elio é extremamente arredio com Oliver. Ele desfaz do visitante, imita seus trejeitos e se esconde. Só que pouco a pouco seu desejo começa a tomar conta de sua expressão corporal. Até que, em uma das cenas mais quentes do filme, Elio pega o calção de banho de Oliver e o coloca sobre a cabeça, enquanto simula o ato sexual, escondido, em cima da cama do Oliver. Estes detalhes colocados durante o filme e conduzidos com primazia por Timothée Chalamet, demonstram a paixão e o desejo sexual de um jovem apaixonado, mas sem nenhuma certeza dos sentimentos do seu objeto de obsessão.

E o filme consegue falar com uma parcela, que assim como Oliver, precisou amadurecer sem poder confessar seu amor, sempre indagando, se aquele olhar, aquele toque, realmente representava um sinal. Por vivermos em um constante estado de repreensão sexual, carregamos até a vida adulta estágios que homens e mulheres heterossexuais usualmente superam na adolescência. Da mesma maneira que Oliver, temos medo de agir em cima de nossos desejos, de confessar nossos sentimentos. Exatamente por isso, vivemos de idealizações, sonhos adolescentes que se manifestam durante o dia e a noite, com antecipação e questionamento. Crescemos inseguros e muitos de nós nunca atinge a confortável segurança que Elio conquista ainda bem jovem. E como desejamos essa segurança. 

Diferente de vários filmes lançados especialmente para o público LGBT+, Me chame pelo seu nome não encontra o tipo de barreira sentimental usualmente expressada em longas do tipo. Não existe o confronto direto, tão pouco o medo, preconceito e a violência. Por um bom tempo, como audiência que consome este produto avidamente, me preocupei, mas a beleza do filme está exatamente naquilo que o difere. Este é um filme feito para qualquer pessoa, não apenas para um único público. A história aqui é o romance e não os conflitos da mente de um adolescente saindo do armário. Para ser mais preciso, a “transição” de sua orientação é tão simples e sensível, que pode parecer surreal, mas não é.

Após se despedir de Oliver e voltar para casa, totalmente abalado pela perda de seu primeiro amor, Elio, que já havia experimentado uma espécie de despertar sexual com uma garota, usada por ele como forma de “amadurecimento” – afinal como ele poderia se igualar a um homem bem mais velho e que aparentemente também mantinha um relacionamento com outras mulheres? – escuta do pai um dos diálogos mais fortes e belos que já tive o prazer de ouvir em um filme e que resume bem o que nos tornamos quando deixamos de lado o Elio que carregamos e nos enterramos após as desilusões da vida adulta:

“Nós arrancamos tanto de nós mesmos para nos curarmos mais depressa das coisas, que ficamos esgotados perto dos 30 anos. E temos menos a oferecer toda vez que começamos algo com alguém novo. Mas se obrigar a ser insensível para não sentir alguma coisa… Que desperdício!”

O momento mais polêmico do filme não está na relação entre um homem e um adolescente, tão pouco no beijo que ambos trocam no meio da noite, nas aventuras dentro do quarto de Elio ou do momento em que eles saem para nadar e Elio agarra o pênis de Oliver. A cena que mais levantará discussões com certeza é a do pêssego, figura tão emblemática durante as duas horas de duração do longa. O pêssego, imagem que reflete a juventude, sendo arrancado da árvore quando maduro, transformado em suco, em alimento, em prazer, é a alegoria da vida de um jovem rapaz que, assim como o pêssego, encontrou sua primavera durante um verão italiano.

“Elio. Elio. Elio. Elio. Oliver…”

Call Me By Your Name é sensível e totalmente humano. Um filme que deverá ser apreciado por sua cadência e ritmo modorrento, mas de forma alguma entediante. Como toda leitura, ele é carregado de frases poderosas e cenas descritivas. E como todo romance, ele deverá encantar na mesma frequência que excita e provoca. Dificilmente um filme de romance com esta temática conseguirá seduzir na mesma proporção. Definitivamente esta é a obra prima de Luca Guadagnino, que trouxe com sua sensibilidade e sensualidade mais um filme que deverá seguir a onda de premiações que Moonlight conseguiu em 2017. Um pêssego nunca mais será apenas um pêssego.

Me chame pelo seu nome traz um típico romance de verão, belo e triste, conduzido com delicadeza e atuações reveladoras Existe um espaço especial para filmes de romance de verão, usualmente belos e igualmente tristes. Call Me By Your Name, de Luca Guadagnino e baseado no livro homônimo de André Aciman, conta a história de Elio Perlman, um jovem judeu ítalo-americano incrivelmente inteligente, de dezessete anos de idade, e Oliver, um estudante americano convidado pelos pais de Elio para um estágio de verão na casa da família, na Itália. Ambientado nos anos 80 o filme fala, principalmente, a respeito do…

Call Me By Your Name

Filme

Nota

Me chame pelo seu nome não encontra o tipo de barreira sentimental usualmente expressa em longas do tipo. Não existe o confronto direto, tão pouco o medo, preconceito e a violência. O filme utiliza o romance como meta e não se distrai durante o caminho, entregando sensualidade, beleza e sentimentos. Apenas o que se propõe a fazer.

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Sobre Diego Antunes

Fundador do site, também colabora com postagens para o Série Maníacos com reviews de séries. Nutre um amor incondicional pela Marvel e é leitor ferrenho dos quadrinhos da casa das idéias desde os 12 anos de idade.

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