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Crítica|Star Trek Discovery 1.10 – Despite Yourself

Star Trek Discovery abraça o lado clássico de sua fórmula exagerada e termina derrapando no próprio tom

Sinopse: Tyler enfrenta uma crise de estresse pós-traumático enquanto uma falha do motor de esporos aitra a Discovery num universo alternativo e selvagem.

Existe uma diferença bem grande entre fazer uma homenagem e mudar completamente sua estrutura para se encaixar naquilo que representa tal produto. Star Trek tem diversas interpretações diferentes. Do caricato, com a série original, para o mais denso, como Deep Space Nine e seus assuntos de religião, conflito entre membros da tripulação, entre outros, cada temporada oferece uma abordagem diferente, mesmo que apenas na superfície. Discovery, porém, ainda está trabalhando para encontrar aquilo que a define. Até o momento ela parece não ter descoberto totalmente e apesar de ter entregado um episódio interessante, a impressão é a de que a série está jogando tudo na parede, apenas para ver o que gruda e pode ser aproveitado depois.

Introduzir mais uma vez a dimensão paralela conhecida como ‘Universo Espelho’ é algo que aproxima muito Discovery do restante da franquia Trek. Entretanto a maneira utilizada para gerar essa aproximação beirou o ridículo em alguns momentos. Desde o começo da série DIS fez questão de introduzir certo humor em suas cenas, mas apostou no clima sombrio e emergencial. Após a Batalha nas Estrelas Binárias, com a guerra contra os klingons explodindo ao redor da galáxia, o confronto havia tomado conta da fórmula da série. Pouco do que Star Trek se tornaria no futuro e do que ela representa hoje no presente foi explorado. Exatamente por esse motivo parece absurdamente estranho que a série simplesmente tenha jogado seus personagens em outra dimensão, com pouca preocupação com a guerra que está eclodindo do outro lado. Utilizar as informações sobre a tecnologia de camuflagem para que o time retorne e cumpre sua missão é nobre, mas qualquer outra justificativa também se encaixaria – aquele é um universo xenófobo, violento e racista, qual outra desculpa eles precisavam para desejar voltar para casa?

Ao contrário do esperado, porém, Discovery opta por colocar a guerra em pausa, indo totalmente contra tudo o que construiu até agora, e apresenta um tom discrepante com o restante do episódio. É difícil engolir a morte de Culber, um momento totalmente trágico, se a cena usada como destaque após o assassinato é a da “Capitã Killy”. Não existe nenhum problema em se criar um capítulo leve, solto e ambientado em uma realidade alternativa. Contudo é preciso que exista uma progressão natural do tom proposto. Indo contra a corrente, “Despite Yourself” mistura de tudo um pouco e termina com uma salada de coisas que dariam certo caso o direcionamento fosse outro, mais objetivo.

Vou confessar que fiquei muito ansioso sim com a possibilidade de ver um novo mundo, com um conjunto de regras próprio, mesmo que a proposta seja requentada do que Star Trek já fez – ou fará. O universo espelhado oferece a oportunidade de ter os mesmos personagens, através de um viés preconceituoso, de transformar heróis em vilões e mostrar o potencial de cada um, em um ambiente diferente. É um prato cheio para qualquer fã de ficção científica. DIS não vai muito longe e cria um evento de infiltração, com destaque para o teatro de termos Michael e Lorca dentro da nave “inimiga” se passando por eles mesmos. Lorca um traidor naquela dimensão, Michael presumidamente morta e capitã do Império. Estas são amarras clichês, mas que oferecem diversão. Se a série não estivesse esbarrando em si mesma dentro deste corredor apertado que criou ao impor a guerra como mote, eu consideraria “Despite Yourserf” um forte capítulo. Mas não consigo e existem diversas barreiras que me impedem de fazê-lo.

A morte do Dr. Culber é horrenda – apesar de ainda permanecer em aberto devido a recentes declarações do ator. Existe, contudo, a grande dúvida a respeito do que significará a morte do parceiro para Staments. Se, de alguma forma, ela impulsionar a história dele, saberemos que o motivo para a morte do marido não foi “nobre” e que Discovery cometeu um grande erro, conhecido popularmente como fridging (colocar na geladeira, como a parceira do Lanterna Verde, Kyle Rayer, foi encontrada depois de morta). Personagens gays e lésbicas usualmente tem expectativa de vida curta na televisão – a maioria não sobrevive três temporadas, levando em consideração produções que não são especificas para este público, como por exemplo, Queer as Folk, Looking e The L World. Em quase todos os casos de morte prematura, onde o personagem ainda está jovem e é, sempre morto, o resultado é apenas um: motivar o parceiro/parceira ou criar um dispositivo descartável que poderia facilmente ser justificado com a pessoa viva. Se Culber não detém “poder” sobre sua própria morte, ele se torna descartável. E então eu e Star Trek Discovery precisaremos ter uma conversa série.

Deixando de lado o aspecto filosófico, potencial, por trás da morte de Culber, o movimento significa uma perda considerável para a série. Não apenas por estarmos falando do primeiro casal gay de toda uma franquia – também por isso, somos o Gay Nerd Brasil, não é mesmo? – mas principalmente por ele ser um dos poucos personagens com personalidade dentro da série. A grande maioria nem ao menos fala algo diferente das ordens de comando na ponte da Discovery. Logo, vê-lo morrer daquela maneira cruel, por um homem que figurava como parceiro da protagonista, é doloroso ao extremo. Perder alguém com tanto dimensionamento e personalidade, defendendo o marido e também cumprindo seu dever como médico, ao desafiar Lorca, o Capitão, é de um heroísmo enorme.

E se o episódio já não estivesse cheio de temas complexos, alternando com períodos de comicidade – a luta entre Michael e o seu capitão substituto, apesar de brutal, soou como uma esquete cômica – ainda tivemos a confirmação de que existe algo muito errado com Tyler, talvez até provando a teoria de que ele é Voq, o Klingon desaparecido e parceiro de L’Rell. A revelação de Culber de que Tyler havia sido modificado, com órgãos encolhidos, ossos serrados e estatura reduzida, comprova que aquele não é o mesmo Tyler que uma vez serviu a Federação. Seu comportamento ao matar Culber, se o médico não voltar a vida eventualmente e anular o feito, prova que ele é, no mínimo, um potencial vilão e não apenas um homem perturbado. O mesmo vale pela maneira que L’Rell se portou quando sua frase de sugestão não despertou a consciência de Voq. Neste ponto congratulo a série pela abordagem, mas também condeno, afinal, apenas mulheres, homens de cor e gays morrem em DIS e isso está ficando cansativo.

Apesar de bagunçada e de ter provado péssima na tomada de decisões, Star Trek Discovery ainda mantém um apelo muito grande, especialmente para quem é Trekker de carteirinha. O potencial de termos a tripulação desenvolvendo uma história dentro do universo espelhado é um movimento que atiça a curiosidade, mesmo que o tom não esteja sempre em dia com a proposta do episódio. Já estamos mais próximos de descobrir, finalmente, o que está acontecendo com Tyler. Também já temos um relacionamento melhor com parte da tripulação e até mesmo diversão em certas interações – novamente, condeno a mistura de temas que fez da série algo caricato, enquanto ela tentava ser séria. Meu coração me diz para continuar, mas minha cabeça soa diversos alarmes. E apesar de todo saudosismo, não teria sido mais interessante um novo universo, do que um reaproveitado e já explorado? Ou uma imersão, sem precisar deixar a guerra de lado – um tema que infelizmente voltará para nos castigar. É assim que Discovery entra em 2018, dividida entre dois universos – o das boas ideias e o das ruins,

Easter eggs e outras informações de Despite Yourself

Este não é o primeiro episódio da franquia a explorar o Universo Espelho, os outros foram: Mirror, Mirror (Clássica), “In a Mirror, Darkly e In a Mirror, Darkly, Part II (Enterprise), assim como The Tholian Web, Crossover, Ressurection e The Emperor’s New Cloack (DS9).

– Será que a identidade do Tyler será revelada por um tribble?

– Quando ‘Killy’ faz contato por áudio e se passa pela Capitã da Discovery, ela coloca Lorca para conversar com o Capitão da outra nave e ele cria um sotaque irlandês e assume a função de engenheiro, o mesmo de Scotty de TOS, que é Irlandês. 

Despite Yourself foi dirigido por Jonathan Frakes, o Comandante Riker de TNG.  

– O episódio confirmou a teoria de que Staments estava conseguindo enxergar outros universos, quando em Si Vis Pacem, Para Bellum ele chamou Tilly de Capitã. Resta saber se ele estava se referindo ao Espelho e não outro.

– Poderia o Lorca da DIS na verdade ser o Lorca do Universo Espelho, que por algum motivo fugiu para o outro universo e por isso é tão extremista em suas ações? Justificaria sua obsessão com a Michael, que pode ter terminado virando a casaca no Universo Espelho e não morta pelas mãos de Lorca. Vamos aguardar.

– A USS Defiant e a Discovery tem história similar, com ambas indo parar em outro universo e um membro da tripulação com o pescoço quebrado.

– Vamos a uma pequena aula de história da USS Defiant. Existem ao todo três naves dentro do universo Trek com este nome, mas a do episódio é também a primeira a ter aparecido, em TOS. No ano 2268 a Defiant recebeu um pedido de socorro em um setor inexplorado. Um evento desconhecido fez com que a tripulação enlouquecesse e começassem a matar uns aos outros. No ano 2269, um anos após o desaparecimento, a Enterprise localiza a Defiant, presa entre universos e com a tripulação morta, o Capitão com o pescoço quebrado. Por causa da “intromissão” da Enterprise, a nave que antes estava presa entre universos terminou desaparecendo. Ela voltou no tempo e ressurgiu em Enterprise, série que antecede TOS, entre os anos de 2151 – 2161, explicando o motivo para ela ter sido citada em três séries em três linhas do tempo diferentes.

– Discovery está no ano estelar 2256, mas já tem conhecimento do desaparecimento da Defiant, que só acontecerá em 2268, em uma confusão cronológica que somente uma verdadeira série de ficção cientifica (e The Flash) poderia oferecer.

– DIS está criando a irritante mania de matar mulheres e minorias. Protejam Michael custe o que custar! 

– Não importa o que aconteça no futuro e se Culber realmente voltará ou não. Star Trek Discovery será, para sempre, a série de Star Trek que matou um de seus personagens gays. 

Star Trek Discovery abraça o lado clássico de sua fórmula exagerada e termina derrapando no próprio tom Sinopse: Tyler enfrenta uma crise de estresse pós-traumático enquanto uma falha do motor de esporos aitra a Discovery num universo alternativo e selvagem. Existe uma diferença bem grande entre fazer uma homenagem e mudar completamente sua estrutura para se encaixar naquilo que representa tal produto. Star Trek tem diversas interpretações diferentes. Do caricato, com a série original, para o mais denso, como Deep Space Nine e seus assuntos de religião, conflito entre membros da tripulação, entre outros, cada temporada oferece uma abordagem diferente, mesmo…

Star Trek Discovery

Despite Yourself

Nota

Um episódio com o tom confuso e discrepante embarca em uma jornada com grande potencial.

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Sobre Diego Antunes

Fundador do site, também colabora com postagens para o Série Maníacos com reviews de séries. Nutre um amor incondicional pela Marvel e é leitor ferrenho dos quadrinhos da casa das idéias desde os 12 anos de idade.

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