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Indicação Nerd | Série – Eastsiders

Quando estudamos sexualidade, inevitavelmente acabamos nos aprofundando nos vínculos afetivos, afinal são duas coisas quase sempre indissociáveis, e por isso acabamos conhecendo um pouco dos formatos de relacionamentos. E em 2015 conheci uma série que abordava um tema que era objeto dos meus estudos na pós, a poligamia, que foi Eastsiders.

Demorei um tempo para indicar esta produção aqui, pois ela não estava disponível e nem traduzida em nenhum site brasileiro. Mas agora em Janeiro a Netflix liberou uma temporada de Eastsiders em seu catálogo, o que me motivou a realizar esta indicação.

Eastsiders foi produzida em 2012 pelo Kit Williamson e seus dois primeiros episódios foram liberados direto no Youtube. Com a boa recepção e elogios da critica americana, a série ganhou sinal verde para a primeira temporada e foi produzido para o streaming da Logo TV.

Kit Williamson não só escreveu o roteiro como também dirigiu e protagonizou a série, algo bem surpreendente pela qualidade de Eastsiders. A série também foi disponibilizada no Vimeo e posteriormente na Netflix gringa.

A Netflix brasileira trouxe a produção para cá, porém com um gigantesco problema. Ela disponibilizou por aqui apenas a terceira temporada! Se Eastsiders fosse uma limited serie, como American Crime ou Black Mirror, onde os episódios e as temporadas não possuem uma linearidade, seria algo plausível, porém a terceira temporada tem conexão com a primeira e a segunda, deixando um grande buraco para o telespectador.

Então este texto contará com alguns spoilers (que você também receberá nos episódios disponibilizados no Brasil). Esteja avisado.

Mas vamos para a história. Eastsiders conta a história de um casal, Cal (Williamson) e Thom (Van Hansis) que estão há um bom tempo juntos e aparentam ser felizes. Porém, não é bem assim. Thom possui um caso fora do relacionamento com Jeremy (Matthew McKellignon) e possui sérias dúvidas sobre o que fazer em relação a isso. Jeremy espera que Thom termine seu relacionamento fracassado com Cal e fique com ele.

Ao descobrir a traição, o relacionamento do casal protagonista é colocado em xeque e diversos temas são abordados, como expectativas dentro de um namoro, fidelidade, monogamia, traição, dependência emocional, etc. Mas tudo de forma lúcida e sóbria, sem maniqueísmo de certo e errado, culpado e inocente (algo comum quando falamos de relacionamentos e fidelidade, onde a grande maioria ainda possui ideias moralistas em relação a sexualidade e sentimentos). E para piorar a situação, é formado um triângulo amoroso.

Além de Cal e Thom, a trama também mostra outro casal, Kathy e Ian. Kathy (Constance Wu) nunca teve relacionamentos duradouros e se vê em crise quando seu namoro com Ian (John Halbach) completa 6 meses. Ian quer aprofundar o relacionamento e casar, enquanto a moça quer se ver livre disso.

E pra completar temos Douglas (William Belli) com seu namorado Quincy (Stephen Guarino). William Belli já é bem conhecido do público por ter participado da quarta temporada de Rupaul’s Drag Race. Douglas é uma drag que almeja a fama e o dinheiro, mas que só consegue realizar shows em pequenas boates onde seu namorado Quincy é promoter.

A série, apesar de a primeira vista abordar apenas a temática LGBTTQ, vai fundo em questões existenciais e que praticamente todo casal já passou (ou vai passar) em algum momento, como quando sabemos que aquela é a pessoa certa pra passar ao nosso lado pelo resto da vida? Quando a infidelidade é irremediável? O amor tem prazo de validade? E quando a pessoa que amamos possui sonhos divergentes para o futuro?

A série abusa da ironia, do sarcasmo e de um humor inteligente, fazendo piadas com coisas que estamos acostumados a ouvir (ler) dentro da comunidade gay, arrancando alguns sorrisos nervosos de nossas bocas. Eastsiders também traz a realidade de forma mais crua, onde nossos queridos personagens possuem boletos pra pagar, dívidas no banco, mães controladoras, desejos sexuais e tudo mais que outras produções (que tentam romantizar e idealizar os relacionamentos gays) procuram esconder.

A trilha sonora da série é outro ponto positivo, com algumas músicas alternativas (hipsters como o protagonista) e outras que parecem tirada da playlist de um DJ de balada LGBTTQ.

Na terceira temporada, liberada aqui no Brasil, Cal e Thom estão de mudança (após várias tempestades no relacionamento) e com objetivos mais claros, mas ainda carregando aquelas dúvidas sobre o futuro. Abandonar a vida de solteiro e viver o resto da vida com uma única pessoa, é o sonho de muita gente, mas que demanda trabalho e resiliência. Nesta temporada temos a participação do ator pornô Colby Keller, que vai mexer com os rumos do casal.

Como eu já falei por aqui em diversas outras produções com personagens gays, o ponto negativo da série é o foco em relacionamentos de homens, brancos, cis, padrãozinho. Como praticamente 90% das séries com personagens gays (de Queer As Folk a Will And Grace), não temos nenhum gay negro, gordo ou trans. Novamente vemos os dramas do gay, branco, classe média, magro/sarado, como único representante dessa imensa comunidade (até o protagonista brinca sobre isso em alguns momentos). Fico imaginando em que mundo estes gays vivem onde não existem pessoas negras. Apesar de que isso não é um problema apenas das produções LGBTTQs, não é mesmo?

Esperamos que a Netflix libere as duas primeiras temporadas, afinal é estranho acompanhar uma história pela metade e, para aqueles que vão iniciar direto na terceira temporada, alguns diálogos e situação ficarão sem sentido. Apesar disso, na ausência de séries que abordem relacionamentos de forma adulta e com personagens gays, Eastsiders é uma boa pedida.

Sobre Michel Furquim

Psicólogo, pós-graduando em Sexualidade Humana. Curioso e pesquisador nas áreas de sexualidade e relacionamentos. Aficionado pelo universo nerd, em especial HQs e Mangás.

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