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Charmed, ou uma daquelas séries que precisam de um reboot para se redimir

Reboots estão tomando conta do mercado desde 1984, quando o primeiro Godzila, de 1954, foi ressuscitado e quer você entenda a tática como uma falta de criatividade ou a chance de ter determinado material recebendo uma nova abordagem, para um novo público, é preciso reconhecer que em alguns casos usar determinado nome para fazer algo bom, não é tão ruim. Culpa do público ou dos executivos, tanto faz – este é um tema para outro texto – Charmed é apenas a mais nova “vítima” da máquina de ressurreição que é o mercado da TV.

Charmed, do finado canal The WB Network, atual The CW (canal que pertence a CBS e a Warner, por isso C + W), foi uma série de 1998 e que durou oito anos, encerrando sua trajetória na televisão um pouco antes do final da WB e começo da CW, em 2006. A história gira ao redor de três irmãs bruxas, com poderes de telecinese, congelamento (do tempo) e premonição. Prue (por três temporadas, sendo depois substituída por Paige), Piper e Phoebe Halliwel, descobrem seus poderes após a morte da avó. Cada uma é capaz de um (ou mais) dons particulares. Prue pode mover objetos com a mente e também projetar seu corpo astralmente, Piper pode congelar ou explodir objetos (e pessoas) e Phoebe, a mais nova, tem o dom de premonição e levitação. Paige, a meio irmã que aparece após a morte de Prue, pode se teletransportar e também usar seu poder para mover objetos. Durante oito anos as irmãs Halliwell combateram demônios e forças malignas enquanto viviam em sua gigantesca casa em São Francisco.

Piper, Prue e Phoebe tinham uma missão bem definida e Phoebe era a maior defensora dela.

Após a quarta temporada, a última que eu realmente consegui aproveitar Charmed – apesar dos efeitos especiais e das histórias que estavam começando a ficar um pouco repetitivas – a série começou a se transformar em algo problemático. Lentamente as irmãs passaram a não se preocupar mais com sua herança bruxa, tão pouco com as vítimas dos demônios que assolavam São Francisco. O que antes era irmandade, empoderamento feminino e família, “evoluiu” para fantasias baratas e bem fetichistas, além de muito “salvar vidas está atrapalhando minha agenda de encontros”. Em determinado ponto, tudo o que as três queriam, sem exceções, era viver uma vida normal e não mais salvar vidas. E apesar de entender, afinal uma delas era mãe, a outra queria ser mãe e a mais nova queria encontrar seu lugar no mundo, construir uma produção ao redor de três mulheres que não querem se envolver com o drama dos necessitados, renegando a missão, é um verdadeiro tiro no pé.

Existiram alguns períodos em que a série reconheceu o problema, mas com um reconhecimento passageiro. Phoebe estava cada vez mais preocupada em arrumar um marido. Piper, cansada de ter que lutar contra as forças do mal sempre fazia uma cara azeda quando algum necessitado batia em sua porta ou atrapalhava sua vida pessoal. As duas que estavam presentes na série desde o piloto, se afastaram tanto da proposta de heroínas, que a única reação possível quando ambas vociferavam como salvar vidas estava atrapalhando a vida de mãe e de possível mãe, era o desespero. Seria como criar um filme da Mulher Maravilha em que ela vira os olhos e reclama muito antes de subir a escada da trincheira e vai em direção as balas com nada além de suas braçadeiras, escudo e uma cara de tédio. Não dá, né?

Problemas orçamentários também não ajudaram Charmed em seus oito anos. Por exemplo, quando o dom de levitar da Phoebe ficou muito custoso para a produção, decidiram criar um episódio de julgamento, onde a personagem, que também podia ter visões sobre o passado e futuro, foi julgada por estar abusando de seus poderes em prol de si mesma, indo contra uma regra estabelecida nas primeiras temporadas e muito desprezada depois. Uma ótima ideia, usando um ótimo personagem, Barbas, mas que serviu apenas para limitar. Em pouco tempo lá estava Phoebe, encucada porque não tinha marido e também revoltada com a possibilidade de não ser mãe. Durante a sétima temporada da série Phoebe não falou de NADA, a não ser da sua vontade de parar de ser uma bruxa para poder encontrar seu marido.

Claro que não existe nenhum problema em ter suas personagens querendo uma vida própria, mesmo que essa gire ao redor de procurar um marido por três anos, mas a maneira escolhida para lidar com o fardo do ‘grandes poderes e grandes responsabilidades’ nunca foi trabalhado verdadeiramente dentro da série. Quando ela finalmente percebeu o que deveria fazer para consertar sua premissa, lá na oitava temporada, os erros cometidos na sétima já estavam grandes demais e o orçamento beeeeeem menor. No sétimo ano, depois de um grupo de vilões ter usado o desejo das ‘Encantadas’ de não precisarem mais lutar, ter transformado a Terra em uma utopia, a produção reconheceu que a vontade de encerrar a luta era muito grande e que aquelas mulheres mereciam um descanso. Para tal, elas “morreram” e assumiram novos rostos, assim ninguém as procuraria mais, demônios não tentariam matá-las e os necessitados, bom, que continuem necessitados.

Depois de um tempo, a série só queria vestir suas personagens em fantasias baratas.

Outra produção que também trabalhou essa questão foi Buffy a Caça Vampiros. Só que diferente de Charmed, Buffy entendia que ela era a única pessoa capaz de lutar e que, a única maneira de fazê-lo da maneira apropriada, era dividindo seu poder para que outras mulheres pudessem lutar também e tivessem a capacidade de ajudar e não apenas depender de alguém as protegendo. Charmed, por outro lado, se transformou na série em que as protagonistas reclamavam muito antes de salvar a vida de alguém, procurando sempre uma maneira de fugir da luta.

A nova série, o reboot planejado pela CW, terá como principal missão mostrar essas mulheres vivendo suas vidas, mas também lutando contra as forças do mal, fazendo o bem porque podem e não apenas porque são obrigadas. Trazer de volta essa série demonstra uma chance para que Charmed volte a significar algo, além de efeitos especiais toscos e a eterna discussão de “o que levou a Shannen Doherty a ser demitida?”. Charmed sempre teve uma ótima premissa, três mulheres usando seus poderes para impedir o avanço das forças do mal, baseadas nos preceitos da Wicca, da Deusa… mas em algum momento decidiu que queria ser Gilmore Girls.

Sobre Diego Antunes

Fundador do site, também colabora com postagens para o Série Maníacos com reviews de séries. Nutre um amor incondicional pela Marvel e é leitor ferrenho dos quadrinhos da casa das idéias desde os 12 anos de idade.

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