Página Inicial / Resenha e Crítica / Crítica - Série / Crítica|RuPaul’s Drag Race All Stars 3.02 – Divas Lip Sync Live

Crítica|RuPaul’s Drag Race All Stars 3.02 – Divas Lip Sync Live

No jogo dos tronos de Drag Race ou você ganha ou você morre é eliminada

RuPaul’s Drag Race sempre foi uma competição arisca, mas nunca dada a armações. Não consigo me lembrar de cabeça de nenhum momento em que existiram alianças realmente comprometidas com a eliminação de outras queens. Durante a terceira temporada nós vimos o embate entre heathers e boggers, mas tirando as maquinações de Shangela, cada uma estava mais preocupada em se sair bem nos desafios do que se unir para derrubar o time adversário. Também tivemos o momento em que Phi Phi tentou convencer Latrice a se prejudicar no desafio e forçar Willam a dublar, mas novamente, não conseguiu sair do papel. Enquanto o drama é parte essencial de qualquer reality, RPDR sempre esteve preocupada com shades específicos, provocações abertas e pouco – ou nenhum planejamento. Bom, já podemos considerar todas essas afirmações como falsas. Habemus Shangela (com um L) Laquifa Wadley. 

E claro, existe sempre aquele momento em que claramente a edição está favorecendo uma queen em detrimento de outra – no caso deste episódio, outras. É diferente do Snatch Game, em que as competidoras escolhem quem irão interpretar, já que o desafio desta semana foi “aleatoriamente” definido por RuPaul. Mas será que esta escolha foi mesmo justa? Thorgy chama a atenção para si quando questiona a justiça ao receber uma cantora que não é tão conectada assim com o meio gay. Claro, RuPaul diz que Stevie Nicks é um ícone do movimento gay e ela realmente é, mas não ao ponto de funcionar como uma referência para o público mais novo – especialmente enquanto ela está competindo com figuras mais espalhafatosas, como Mariah, Diana Ross, esta última também pertencente a um limbo que apenas as mais velhas irão entender.

Sim, Thorgy, dar Stevie Nicks para você e Mariah para Shangela ou Celine Dion para Milk soa muito como uma conspiração para te prejudicar, mas ao mesmo tempo, também funciona para que você mostre do que é capaz quando recebe algo não muito interessante para trabalhar. Infelizmente Thorgy não consegue visualizar o que precisa para ganhar. Sua devoção por Nicks poderia ter ajudado muito, mas no final terminou atrapalhando. Essa não é a primeira vez que uma queen se dá mal por não querer fazer uma imagem caricata de sua cantora favorita. Também não é a primeira que essa mesma queen é eliminada por não conseguir fazê-lo. A performance não foi interessante, mas me julgue o quanto quiser, ainda foi superior a versão estranha da Celine da Milk, que não deveria ter sido salva nunca. Contudo, é bom pontuar que seu look pareceu bastante com um cosplay do Cell de Dragon Ball Z. 

Na verdade todo o episódio foi permeado por decisões estranhas. Chi Chi foi elogiada e todos os jurados riram bastante de sua apresentação como Patti LaBelle, então não consegui entender muito bem. Erro de edição? Talvez, mas não é meu trabalho editar o episódio, não é mesmo? Chi Chi é uma competidora forte, mas ao mesmo tempo muito limitada. Ela constantemente quase chega onde deveria. Só que o quase não é o bastante. Patti LaBelle foi uma vitória, mas seu look néon não me encantou. A peruca não estava bem posicionada e enquanto Chi Chi andava era possível ver por baixo dela, algo que não conta muitos pontos. Felizmente ela consegue escapar do bottom 2, mas não acho que isso acontecerá mais uma vez – a não ser que ela tenha uma aliança formada.

Falando em alianças, eu preciso dedicar um espaço especial para tratar Shangela, a Nancy Drew of Drag e Rainha de Survivor. De novo, preciso voltar na discussão do “papel manjado” e da aparente manipulação da edição para que uma queen se destaque. É uma faca de dois gumes, já que oferecer exatamente o que a participante quer pode se provar como um motivo para eliminação, nem sempre vitória, mas Shangela ganhou um presentão. Sua Mariah não canta, mas reproduz a vergonhosa apresentação de ano novo de 2016. É a oportunidade de ouro para que ela incorpore sua veia artística – e Shangie é uma atriz com crédito em séries como: Arquivo X, Bones, 2 Broke Girls e Glee. 

Shangela também é muito inteligente e oferece exatamente o que a audiência do programa deseja: DRAMA! Em sua temporada ela ficou conhecida por protagonizar os melhores com Raja e as outras heathers. Aqui, Shangie já percebeu que Milk poderá entregar exatamente o que ela quer. Existe um conceito por trás da coroa de Drag Race, um que diz que raramente a coroada consegue colher muitos louros após a vitória. Porém, existe aquele outro culto – uma brincadeira que a série fez com Handmaid’s – e que confere prêmios melhores, que é o criado pelos fãs do programa. Trixie, Shangela, Katya e outras não conseguiram o pódio, mas alcançaram bem mais do que as coroadas. A jogada de brincar com a possibilidade de uma aliança durante a eliminação não é inédita, Alaska o fez abertamente na temporada passada e pagou caro, mas nem tanto, por isso. Shangie não é tão levada pelo emocional assim e enxerga em Kennedy um discurso mais seguro do que o de Thorgy, mas vamos falar sobre a eliminação depois. 

Milk, que está surtadíssima nessa temporada – bem melhor que a versão blasé amedrontada da sexta – não conseguiu aceitar sua posição no safe. Eu diria que ser salva, com aquela apresentação horrível de Celine, com uma maquiagem pior ainda e uma performance nada atraente, é muito mais do que ela merece. Seu desejo de ter sua apresentação ruim celebrada pelos jurados é insano e apenas mostra como a queen não foi beneficiada por sua recém adquirida auto-estima. Onde está Gia Gunn quando precisamos? Já Aja e Trixie mereceram e celebraram a posição segura que conseguiram no episódio. Nada ali foi brilhante e para ser honesto, no T no shade no pink lemonade, o desafio em si não pareceu tão bem feito quanto o Herstory of the World da temporada passada.

Para se juntar a Shangela, temos BenDela, outra queen que conseguiu um grande presente da edição, com Julie Andrews, outra atriz inglesa – como sua Maggie Smith durante o snatch game da sexta temporada, que a garantiu a vitória. Julie é cheia de traços marcantes, a esquete é repleta de batidas cômicas e até mesmo o uso de objetos que ajudam a compor o momento. Claro que jamais poderia desmerecer sua dança e também a qualidade técnica que BenDela garantiu durante sua apresentação. Contudo, também não poderei deixar de lado que tanto ela quanto Shangela e Bebe conseguiram cantoras bem fáceis – mas igualmente passiveis de falha. 

Bebe e sua Diana Ross não brilham de maneira forte, mas garantem um momento marcante, breve, porém bem feito. Como sempre, os maneirismos precisam estar on point para que a dublagem esteja bem feita e apesar de naõ ganhar muito o que dublar, Bebe transmite os movimentos de Diana Ross com maestria. São pequenos detalhes, como o movimento dos ombros e o do cabelo, que representam sua estadia no Top 3 – mas não o suficiente para ofuscar Shangela e BenDela. 

Contudo, ainda precisamos fechar o bottom 3, com a apresentação esquisita e atrapalhada de Kennedy. Existe um erro, apenas um, que é considerado imperdoável dentro de toda a história de Drag Race – e não estou me referindo ao ato de tirar a peruca durante o lipsync, mas sim o de não saber as letras durante um desafio de dublagem. Kennedy comete este crime e paga caro por ele. Sua releitura do seu look de galinha morta no apocalipse e cristalizada é ótimo, apesar de não demonstrar o nível de refinamento que o de Aja, por exemplo, mas é bom o bastante para livrá-la de críticas neste quesito. Só que não conseguirei deixar de comentar sobre o olho dela, que não estava apenas torto, mas quase no queixo. Como é possível? Apenas o apocalipse nuclear para explicar.

Com Chi Chi e Thorgy no bottom 2 e Shangela e BenDela na dublagem, o que nos resta é uma quase repetição do que aconteceu no episódio passado, com uma diferença. Para BenDela apostar no caricato como estratégia é repetir o que ela fez anteriormente, para Shangela, casar o caricato, com dança e alguns movimentos mais sensuais, é ir além do que a sua competidora estava disposta. BenDela tem muita dificuldade em sair de seu estilo, já Shangela não compartilha desta mesma deficiência. “Jump (For Your Love)”  não é incrível, não tem nenhum momento icônico e o mais divertido foi ver Shangela pulando corda, então acredito que a decisão de entregar para ela a vitória foi justa. 

Com a eliminação de Thorgy e a recém descoberta rivalidade com Milk, RuPaul’s Drag Race mostrou que encontrou em All Stars a oportunidade de ouro para entregar para os telespectadores e fervorosos fãs do programa aquilo que vem movimentando a fórmula de Drag Race desde que Rebeca Glasscock eliminou Jade. Contendas, conflitos, armações, shade… É isso que faz um reality show. Sim, ainda tem aquele lance do talento, mas o talento é o que garante a coroa. O SHADE é o que garante a diversão. E nós não vamos levar a coroa para casa, não é mesmo?

Observações

– “A grande e leitosa (Milk), ela é bem confiante, mama. Por que um amigo de um amigo de um amigo, que era amigo de um amigo da Celine disse que era, ‘Adorável, garota!”

– “Quieta Valentina” – O GRITO QUE EU DEI

– O vestido da BenDela estava incrivelmente sensacional. Aqueles brilhos? É assim que se coloca pedras em uma roupa, Kennedy Crazy Eyes!

– Parafraseando sua mãe drag, Shangela: “Inveja é uma assassina nessa indústria, Jade mama!

– Estou amando a infusão de personalidade que a Aja ganhou. Espero que saia do depoimento para os desafios, ASAP! 

– “Garota, você quer que a Celine venha aqui e te cante uma música?”. Aja, nunca critiquei.

– Milk já está usando a fragrância da Jinkx Monsoon:

No jogo dos tronos de Drag Race ou você ganha ou você morre é eliminada RuPaul's Drag Race sempre foi uma competição arisca, mas nunca dada a armações. Não consigo me lembrar de cabeça de nenhum momento em que existiram alianças realmente comprometidas com a eliminação de outras queens. Durante a terceira temporada nós vimos o embate entre heathers e boggers, mas tirando as maquinações de Shangela, cada uma estava mais preocupada em se sair bem nos desafios do que se unir para derrubar o time adversário. Também tivemos o momento em que Phi Phi tentou convencer Latrice a se prejudicar no desafio…

RuPaul's Drag Race All Stars

Divas Lip Sync Live

Nota

Drag Race mostrou que encontrou em All Stars a oportunidade de ouro para entregar para os telespectadores e fervorosos fãs do programa aquilo que vem movimentando a fórmula de Drag Race desde que Rebeca Glasscock eliminou Jade.

User Rating: 4.6 ( 1 votes)

Sobre Gay Nerd Brasil

Veja Também

Charmed, ou uma daquelas séries que precisam de um reboot para se redimir

Reboots estão tomando conta do mercado desde 1984, quando o primeiro Godzila, de 1954, foi …